sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dos Anabatistas aos Batistas Regulres


1 O surgimento dos Anabatistas
Desde os tempos apostólicos houve aqueles que tiveram a Bíblia como sua autoridade, ainda que não fossem chamados batistas, e nem mesmo poderiam concordar com tudo que eles criam e praticavam. Mas o princípio básico da Bíblia como autoridade pertencia a eles como pertence a nós. Por isso, temo-los na conta de nossos antecessores espirituais.
Esses pequenos grupos de cristãos que guardavam a doutrina dos apóstolos não aceitavam os dogmas da igreja oficial, por isso, eram perseguidos pela Igreja Romana, dentre esses grupos podemos destacar: os Montanistas (século II ao século VIII), os Novacianos (século III ao século VIII), os Donatistas, Paulicianos (século VII ao século XVI), os Valdenses (século V ao século XVI), dentre outros.
No século XIV surge outro grupo de cristãos chamados de anabatistas (ou rebatizadores), pois defendiam que a Bíblia ensinava o batismo dos crentes por imersão depois da conversão.
É importante informar que esse grupo não escolheu este nome, ele foi dado por seus inimigos. Os anabatistas defendiam as doutrinas dos apóstolos, as quais eram contrárias à Igreja Romana, por isso, foram grandemente perseguidos não apenas pela igreja católica, mas, também, pela igreja protestante.
Muitos foram queimados vivos, outros afogados. Mais tarde, líderes da Reforma também os perseguiam frequentemente. Embora não haja nenhum elo direto entre esses primeiros grupos, sem dúvida esses anabatistas foram os “precursores” dos batistas.

2 O surgimento dos Batistas
O nome batista deriva do movimento Anabatista, que existia já antes e durante o período da reforma. O termo “anabatista” significa aquele que rebatiza. Este grupo se recusava a aceitar o batismo infantil. É esta a origem do nome atual de “batista”.
As primeiras igrejas Anabatistas a serem chamadas batistas, de acordo com historiadores, foram as igrejas desse nome na Inglaterra e na Holanda no século dezessete. Um ponto importante em relação à origem do nome batista, é que estes não receberam o nome de algum líder humano, como no caso de muitas denominações, porque o movimento não foi fundada, como denominação, por um líder terreno.
Embora o termo, batista, encontre-se na Bíblia referindo-se a João Batista (Mateus 3.1), os batistas não reivindicam essa origem para o seu nome. Uma pessoa que se intitula BATISTA fá-lo porque é membro de uma igreja batista.
Em 1611, um pequeno grupo de pessoas profundamente religiosas deixaram a Inglaterra por causa da igreja oficial. Foram para a Holanda e, sob a liderança de um certo João Smyth, organizaram a primeira igreja “batista”. Muitos desse grupo retornaram à Inglaterra e logo as igrejas batistas começaram a surgir por toda a Inglaterra. Foram perseguidos e caçados, mas aumentaram em número. Na América, a primeira igreja batista foi organizada por Roger Williams, em Providence, Rhode Island, em 1639, porque os puritanos da Nova Inglaterra o expulsaram.
O termo “batista” poderia com propriedade ser considerado sinônimo de cristão bíblico. Os batistas têm procurado moldar suas doutrinas e práticas no padrão das igrejas do Novo Testamento. [...] “A Bíblia como regra de fé e prática”. É verdade que há alguns que levam o nome de batistas hoje em dia, que não sustentam os princípios distintivos dos batistas e realmente não são batistas
Para dizer a verdade, a primeira vez em que esse termo, batista, ficou registrado na história, foi em 1644 na Inglaterra. Esse nome não foi de escolha própria, mas foi dado pelos seus oponentes. O motivo foi a sua posição única na prática da imersão apenas para os crentes. Contudo, eles defendiam outras características bíblicas, mas essa se tornou notável naquele tempo. Não há nenhum organizador ou originador dos batistas. Eles não têm uma declaração de fé. Uma igreja batista é um grupo de crentes que considera a Bíblia como sua única fonte de autoridade e Jesus Cristo como o cabaça da igreja.

3 Os Batistas Regulares
A igreja Batista Regular é uma denominação cristã evangélica, de orientação batista mais conservadora e fundamentalista. A denominação, ou movimento como costumam chamar, foi fundada em 1932 quando foi organizada a General Association of Regular Baptist Churches (GARBC) por batistas que se separaram da Convenção Batista do Norte, dos Estados Unidos, liderados por Howard C. Fulton. A separação deu-se devido à discordância ao liberalismo teológico que estava surgindo e minou as bases de todas as denominações desse país.
No Brasil, o movimento chegou à região norte em 1935 e 1936 com os missionários William A. Ross e Edward Guy McLain respectivamente. MacLain ao chegar ao Brasil se instalou em Juazeiro do Norte/Ce, onde se deu início à 1ª Igreja Batista Regular do Brasil. E, no Nordeste, através dos missionários Carleton e Adelaide Mateus em 1932, na cidade de São José de Mipibu no estado do Rio Grande do Norte.
A sua doutrina é bem mais conservadora do que a de outros batistas, pois são fundamentalistas e separatistas. Dependendo da congregação, pode variar em relação ao calvinismo, ou ao arminianismo, ou nenhum dos dois. Entretanto, os calvinistas representam o pensamento dominante do movimento. São pré-milenistas dispensacionalistas e, tenazmente, rejeitam o pentecostalismo e qualquer de suas expressões.
Hoje conta com mais de 700 congregações, 5 seminários, uma editora e vários acampamentos. Com destaque de sua presença marcante, quanto ao restante do país, os campos do Rio Grande do Norte, Ceará São Paulo.

A) Organização
Os batistas regulares preservam o princípio histórico dos batistas quanto a autonomia da igreja local. Estas igrejas reúnem-se para comunhão através de associações estaduais, e estas representam-se nacionalmente por meio da Associação de Igrejas Batistas Regulares do Brasil (AIBREB).
Como expressão de um movimento, esse grupo considera que para ser uma igreja batista regular não é necessário estar ligado a qualquer associação, desde que mantenham os distintivos históricos dos batistas, sejam conservadoras, fundamentalistas, e preservem a mesma doutrina e prática. Entretanto, qualquer igreja só pode associar-se a AIBREB se estiver ligada a uma das associações estaduais.

B) Fundamentalismo
Apesar do desgaste do termo na modernidade, propagado pela mídia devido ao terrorismo islâmico, eles insistem em mantê-lo considerando outros movimentos absolutistas e totalitários como pseudo-fundamentalismo ou neofundamentalismo.
Por fundamentalistas eles simplesmente querem dizer que creem em:
·         A inspiração verbal e plenária das Escrituras.
·         O nascimento virginal de Cristo.
·         A crença no sobrenatural, ou seja, nos milagres da Bíblia.
·         A morte vicária e substitucionária de Jesus.
·         O seu retorno pessoal e iminente.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O que é predestinação?

O tema predestinação tem sido discutido no meio cristão não há pouco tempo, mas em todo o transcorrer da história da igreja. No seu sentido mais amplo o termo predestinação é o ato ou efeito de predestinar, de determinar o destino (de alguém).

Ao falarmos que o ser humano é predestinado ou para o céu ou para o inferno. Então, deduzimos que toda a humanidade, após o pecado de Adão, é predestinada ao lago de fogo. Pois, a pessoa ao não entregar a sua vida ao Senhor Jesus como seu salvador pessoal, não experimentando um novo nascimento (Jo 3.3b), já está condenada, passando por um processo natural da vida que o leva juízo eterno. A pessoa nasce, cresce, reproduz, morre e é julgada ao inferno. Afirmamos isso porque o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Essa morte é a separação eterna de Deus. Entretanto é a pessoa que escolhe em ir para o inferno. O Espírito Santo convence, mas não força ninguém.

O pior de tudo é as pessoas não sabem que o inferno com todos os seres neles contidos, os demônios e os seres humanos, de acordo com as Escrituras será lançado no Lago de Fogo, onde o fogo deste lago não se apaga e o germe não morre. A pessoa vai passar por uma eternidade em tormento, pois cometeu o único pecado que não tem perdão, a blasfêmia contra o Espírito Santo. Este pecado que se refere ao não reconhecimento e a não aceitação da obra salvífica de Jesus Cristo como Unigênito de Deus, que se deu em resgate da humanidade. O Senhor e salvador, o único Deus.    

Deus sabendo dessa triste realidade da humanidade, por intermédio se seu Filho Unigênito interveio nesta predestinação, mudando a sorte deste homem, dando a possibilidade de ser salvo. Mas essa salvação só pode acontecer se este homem deixar Deus agir em sua vida. É necessário que da parte do homem haja um arrependimento sincero, um arrependimento sem fingimento e entregar a sua vida a Deus, fazendo morrer a sua velha natureza de pecado. Pois o Senhor só age se a pessoa permitir. Esta ação salvífica de Deus para com o homem agora o predestina ao céu. De uma predestinação para a morte passamos para uma predestinação para a vida.

É necessário salientar, entretanto, que Deus não escolhe umas pessoas para o céu e outras para o inferno. O que ocorre é que a pessoa decide se  quer ir para um ou para outro lugar, pois toda escolha há uma consequência. A pessoa ao escolher viver a vida do jeito que está, não mudando uma vírgula, a consequência desta escolha é o inferno. Por outro lado, se a pessoa aceita hoje a Jesus Cristo como senhor e salvador de sua vida ela está participando do plano que foi elaborado antes da fundação do mundo (ef 1.4,5).

Utilizando as palavras do pastor Silas Malafaia "Somos predestinados por Deus para a salvação porque somos parte da igreja e não somos parte da igreja porque somos predestinados individualmente". Qualquer um que quiser escolher a cristo estará predestinado a ir ao céu, qualquer um que quiser viver o curso deste mundo estará predestinado ao inferno, ou seja um pré destino, não um destino definido antes da pessoa nascer. A pessoa faz o seu destino.


“Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. [...] Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanecerá.” (João 3.16,36).

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Natureza da Pregação Expositiva

Autor: Alistair Begg

Disponível em: Ministério Fiel

04 de Junho de 2014 - Igreja e Ministério

Nenhuma consideração quanto à natureza da pregação expositiva seria completa sem nos referirmos à cena impressionante relatada em Neemias 8.
O senso de expectativa entre aquelas pessoas era quase palpável. Seria errado ansiarmos que nosso povo se congregue para esperar pela pregação da Palavra com a mesma paixão e fome?
Esse senso de expectativa intenso está ligado inevitavelmente a um conceito elevado das Escrituras. Há uma diferença tremenda entre a congregação que se reúne em antecipação de um monólogo sobre questões bíblicas, proferido por um colega amável, e a congregação que se reúne na expectativa de que, se a Palavra de Deus é verdadeiramente pregada, a voz de Deus é realmente ouvida. Calvino expressou isto em seu comentário sobre Efésios: “É certo que, se vamos à igreja, não ouvimos um simples mortal falando, mas devemos sentir (até por seu poder secreto) que Deus está falando à nossa alma, que ele é o Mestre. Ele nos toca de tal modo que a voz humana entra em nós e nos beneficia para que sejamos fortalecidos e nutridos por ela. Deus nos chama a si como se tivesse seus lábios abertos, e o vemos ali em pessoa” (Ephesians [Edinburgh, Carlisle, Pa.: Banner of Truth, 1973], p. 42).
Em determinada ocasião, um visitante que foi à Gilcomston South Church, em Aberdeen, enquanto cumprimentava o ministro William Still, comentou: “Mas você não pregou”. Quando o pastor perguntou o que ele queria dizer, o homem respondeu: “Você apenas pegou um texto da Bíblia e explicou o que ele significa”. William Still respondeu: “Irmão, isso é pregação!”
William Still e outros semelhantes estão apenas seguindo o padrão da pregação expositiva estabelecido por Esdras e seus colegas. Aqueles homens piedosos leram o Livro de Deus e o explicaram; e o fizeram de uma maneira que as pessoas entenderam as implicações.
Como devemos fazer isto? Quais são os princípios-chave da pregação expositiva?
Começa com o Texto
A pregação expositiva sempre começa com o texto da Escritura.
Isso não significa que todo sermão começará com a frase: “Por favor, abram sua Bíblia em....” Mas significa realmente que, até quando começamos por referir-nos a algum evento atual ou à letra de um cântico contemporâneo, é o texto da Escritura que estabelece o curso do sermão. O expositor da Bíblia não começa com uma ideia ou uma grande ilustração e, depois, procura uma passagem apropriada. Em vez disso, ele começa com a própria Escritura e permite os versículos em consideração estabelecerem e estruturarem o conteúdo do sermão. Esta é a razão por que, como disse John Stott, “é nossa convicção que toda a pregação cristã verdadeira é pregação expositiva” (Between Two Worlds [Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1982], p. 125). Estamos no caminho errado se pensamos que a pregação expositiva é meramente um estilo de pregação escolhido de uma lista (tópica, devocional, evangelística, textual, apologética, profética, expositiva).
Roy Clements disse acertadamente: “A pregação expositiva não é uma questão de estilo, de maneira alguma. De fato, o passo determinante que decide se um sermão será expositivo ou não acontece, em minha opinião, antes que uma única palavra tenha sido escrita ou falada. Antes e acima de tudo, o adjetivo ‘expositiva’ descreve o método pelo qual o pregador decide o que dizer, não como dizê-lo” (The Cambridge Papers, setembro de 1998).
A exposição não é apenas proferir comentários sobre uma passagem da Escritura. Também não é uma sucessão de estudos de palavra levemente unificados por algumas poucas ilustrações. Não devemos sequer pensar na pregação expositiva em termos da descoberta e da declaração da doutrina central encontrada na passagem. Podemos fazer tudo isso sem realizarmos exposição bíblica nos termos da definição que estamos construindo.
Permanece entre dois mundos
A pregação expositiva procura fundir os horizontes do texto bíblico e do mundo contemporâneo.
Este discernimento é desenvolvido por John Stott em seu livro Between Two Worlds: The Art of Preaching in the Twentieth Century (Entre Dois Mundo: A Arte de Pregar no Século XX). Ele argumenta corretamente que é possível alguém pregar de maneira exegética e, apesar disso, falhar em responder o “e daí?” na mente do ouvinte. Os ouvintes de Esdras, por exemplo, jamais começariam a construção das cabanas se ele tivesse falhado em estabelecer a conexão entre o texto e os tempos em que viviam. A verdadeira exposição precisa ter alguma dimensão profética que deixa o ouvinte sem dúvida de que as coisas que ele acabou de ouvir são uma mensagem viva de Deus e cria nele, pelo menos, uma suspeita íntima de que o Autor o conhece.
Se assumimos o desafio de ensinar seriamente a Bíblia, temos de prestar atenção à advertência de um pregador escocês do século XX, o qual disse que é pura negligência lançar sobre as pessoas grandes porções de fraseologia religiosa de uma era passada sem ajudá-las a retraduzir a mensagem para a sua própria experiência. Isso é tarefa do pregador e não dos ouvintes, ele argumentou.
A redescoberta das obras teológicas dos puritanos é algo pelo que todos somos gratos; porém, ao mesmo tempo, a proliferação de homens jovens cuja entrega da mensagem no púlpito está mais ligada ao século XVII do que ao século XXI é causa de preocupação. No entanto, o problema é muito mais significativo no extremo oposto, quando os sermões são fundamentados abertamente nos assuntos e interesses da cultura contemporânea. Esse tipo de pregação tende a estabelecer muito rapidamente o contato com o ouvinte, mas sua conexão com a Bíblia é tão leve que falha em estabelecer a conexão entre o mundo da Bíblia e o mundo pessoal do ouvinte. A tarefa do pregador consiste em declarar o que Deus disse, explicar o significado e estabelecer as implicações práticas, para que ninguém ignore a importância do que Deus disse.
Donald Grey Barnhouse descrevia frequentemente essa tarefa como “a arte de explicar o texto da Palavra de Deus, usando toda a experiência de vida e aprendendo a ilustrar a exposição”.
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A pregação expositiva encoraja o ouvinte a entender por que uma epístola dirigida à igreja em Corinto, no século I, é importante para uma igreja em Cleveland, no século XXI.
É importante que o ouvinte não saia iludido pela maneira como o pregador lida com o texto. O pregador tem de aprender não somente a fundir os horizontes em seu ensino, mas também a fazer isso de uma maneira que as pessoas aprendam, pelo exemplo, como integrar a Bíblia à sua própria experiência. Os ouvintes enfrentam os perigos gêmeos de supor ou que as coisas recém-ouvidas são totalmente não relacionadas à situação em que vivem ou que tais coisas são imediatamente aplicáveis, ou seja, que “são apenas para eles”.
1. Pensar que a mensagem é irrelevante. O pregador precisa trabalhar com afinco para garantir não somente que fez um bom trabalho de exegese, ajudando o ouvinte a entender o significado do texto, mas também labutar para estabelecer a relevância do texto para o mundo pessoal dos ouvintes. Por exemplo, ao abordar a doutrina da encarnação, ele não pode se contentar apenas em ter certeza de que seus ouvintes assimilaram a instrução, mas ressaltará as implicações do grande princípio da “missão encarnacional”. Para estabelecer essa ligação, o pregador pode dizer algo assim: “O ministério de Jesus foi um ministério de envolvimento e não de afastamento; e, por isso, temos de encarar o fato de que não podemos ministrar a um mundo perdido se não estivermos nele”.
2. Pensar que a mensagem é imediatamente relevante. O segundo perigo é bem real. Aqui, o ouvinte quer se mover imediatamente para a aplicação. Ficará ansioso por saber “o que isto significa para mim”. Em muitos casos, essa pressa para tornar o texto pessoal será destituída da necessidade de entender o que a passagem significa em seu contexto original.
Não conheço ninguém melhor do que Dick Lucas para ajudar os pastores a lidarem com este problema. Jamais esquecerá a experiência aquele dentre nós que, ao ser avaliado por seus colegas, ouvir a afirmação de Dick: “Vamos lá, meu rapaz, isso não é certamente o que o apóstolo quer dizer!” Sou muito grato pelo fato de que ele me tornou cauteloso de tentar aplicar o texto à Igreja em Cleveland, antes de descobrir o propósito de Paulo em se dirigir à igreja na Corinto do século I.
Por exemplo, é possível removermos um texto como Hebreus 13.8 (“Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre”) do contexto que o cerca e fazermos um trabalho adequado de falar sobre os benefícios, para o crente, de um Jesus que é imutável. Mas, se queremos que nossos ouvintes aprendam como interpretar a Bíblia, temos de realizar o trabalho árduo de entender por que o versículo 8 aparece entre os versículos 7 e 9. Se fizermos esse trabalho, acharemos necessário explicar nosso versículo não apenas em separado ou em termos de seu contexto imediato, mas também no contexto mais amplo do livro. Reconheceremos que toda aplicação que não se focaliza no sacerdócio permanente de Cristo não somente erra quanto ao ensino do texto, mas também presta um desserviço às pessoas que estão aprendendo conosco.
O expositor precisa estar sob o controle da Escritura. Este é o terceiro dentre os três princípios para a exposição fiel oferecidos pelo Diretório de Westminster para Adoração Pública:
1. O assunto que pregamos deve ser verdadeiro, ou seja, à luz das doutrinas gerais da Escritura.
2. Deve ser a verdade contida no texto ou passagem que estamos expondo.
3. Deve ser a verdade pregada sob o controle do resto da Escritura.
Que mudança radical aconteceria nos púlpitos ao redor do mundo se tomássemos estes três princípios com seriedade. Seríamos forçados a garantir que o púlpito não seja um lugar de teorização e especulação, de proferir slogans e de manipulação, de contar histórias e promover emocionalismo. Numa época anterior, na Escócia, quando se fizeram grandes esforços para permanecer nestes princípios, o impacto foi óbvio. Na verdade, o conhecimento da Bíblia possuído por nossas congregações, em meio ao nosso suposto entendimento e iluminação, não tem comparação com o daqueles escoceses simples da geração passada, que aprendiam desde a infância a seguir o ensino do pregador a partir da Bíblia. Embora isso tenha sido bem antes de meu tempo, o benefício prolongou-se, e ainda posso recordar que a mão de meu pai tremia levemente quando segurava a Bíblia e seu dedo guiava meu olhar ao longo da página. Quão magnífico é quando Deus ministra ao nosso coração por meio do poder da pregação expositiva!
Tradução: Francisco Ferreira
Fonte: Trecho do Livro Pregando para a Glória de Deus, futuro lançamento da Editora Fiel.
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Alistair Begg
Alistair Begg
Alistair Begg serviu duas igrejas na Escócia, sua terra natal, antes de responder, em 1983, ao chamado para se tornar o pastor principal na Parkside Church, em Cleveland (Ohio). Graduado pela London School of Theology, Begg já escreveu vários livros. Além disso, é ouvido diariamente no programa nacional de rádio Truth for Life. Ele e sua esposa, Susan, se casaram em 1975 e têm três filhos adultos.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Dança ao Senhor?

Por: Vanderlei Dorneles.
Publicado em: Na contramão


A experiência do templo mostra que Deus indicou um padrão de louvor

O Salmo 150 tem sido um dos mais importantes estímulos para o louvor a Deus. Esse hino indica a quem adorar, o espaço primordial do louvor, a motivação para fazê-lo e quem deve louvar. Ao mesmo tempo que inspira o louvor, no entanto, esse salmo também tem inspirado debates porque ele fala acerca de como louvar.

Não há qualquer problema com a afirmação de que “todo ser que respira” deve adorar a Deus, por suas grandes obras, em seu santuário. No entanto, quando o salmista indica um conjunto de instrumentos e diz que devemos louvar a Deus com “danças” (Salmos 150:4), de inspirador o salmo tem se tornado polêmico.

Certos carismáticos têm visto aí uma indicação clara de que a agitação e o ritmo de danças seculares são perfeitamente adequados para louvar a Deus, desde que a poesia seja cristã.
De que tipo de dança fala o Salmo 150 é difícil de saber.

Esse salmo significa que tambores, ruídos e danças são aceitáveis como culto a Deus? Numa leitura superficial, parece claro que o culto protestante tradicional, focado no estudo da Bíblia e emoldurado por hinos reverentes, está longe de atender à recomendação do salmo. Enquanto que um culto dinâmico embalado por música envolvente, emocionante e de ritmo acentuado parece muito mais próximo.

Como entender a recomendação do salmista?

O sentido de qualquer texto só se alcança quando estudado a partir do contexto. Quem escreveu o Salmo 150? Quando foi escrito? Essas questões básicas poderão revelar a compreensão do salmista acerca do louvor.

Os salmos oferecem dificuldades a mais para o estudo por serem composições que se destacam com facilidade de seu contexto, passando a falar por si mesmos, como obra de arte. Contudo, a obra de arte tem um sentido, que deve ser visto através do contexto. Embora pareça claro o que autor quer dizer no Salmo 150, o contexto pode mostrar outras perspectivas.

O objetivo deste artigo é expor o sentido do Salmo 150 a partir da identificação de seu contexto, que seja uma breve história bíblica do louvor em Israel. Todo estudo da Bíblia precisa ser embasado em noções metodológicas oferecidas pela própria Bíblia. Este estudo está apoiado na crença de que a Bíblia é seu próprio intérprete. Ela é suficiente em si mesma porque oferece as chaves para sua interpretação. Um texto obscuro é esclarecido por outros mais claros. Há uma unidade intrínseca à Bíblia, fruto de sua inspiração divina, sendo Deus seu autor final. A verdade revelada só pode ser obtida quando se alcança o significado original pretendido pelo autor. Isso implica que o contexto histórico e literário elucida o texto. Cada palavra deve ser entendida a partir de seu significado original.

Sendo que a Bíblia é suficiente em si mesma, ela deve oferecer luz acerca de quaisquer aspectos da vida cristã envolvidos no grande conflito. Algumas pessoas pensam que a Bíblia nada tem a dizer acerca de música de adoração. Deve-se lembrar, no entanto, que a adoração é o ponto crucial de início ao fim do grande conflito entre Deus e o adversário. Sendo assim, a Bíblia certamente tem muito a ensinar acerca do assunto.

Música e dança em Israel

De que tipo de dança fala o Salmo 150? A resposta para esta pergunta pode ser o ponto de partida para o entendimento do salmo. Ela deve ser buscada nas evidências linguísticas e no contexto bíblico amplo do salmo.

Que tipo de dança faziam as mulheres israelitas para seus maridos quando estes retornavam vitoriosos da guerra? A dança das mulheres para Deus após o Mar Vermelho teria sido diferente de suas danças costumeiras? Não há uma indicação clara acerca dessa possível diferença. Nada parece indicar que as mulheres recém-saídas do Egito tivessem uma dança particular para Deus e outra para os interesses seculares. Na verdade, após liderar a saída de Israel do Egito, Moisés se empenhou em reeducar o povo em muitos aspectos os quais sugerem que Israel, após séculos no Egito, tinha se tornado um povo paganizado (ver Êxodo 16, 20, 21, 22, 23, Levítico e Deuteronômio).

Há, em vez disso, uma evidência de que a dança das mulheres não era reverente e ritual. Quando a Bíblia fala das danças das filhas de Siló usa uma palavra da raiz hebraica chûl (Juízes 21:21,23). A dança das mulheres de Israel na celebração de vitória militar se descreve com o termo mechôlah (I Samuel 18:6; 21:11; 29:5; Juízes 11:34).

Como a dança de Miriam e das mulheres para celebrar a vitória divina sobre o exército egípcio é descrita, em Êxodo 15:20? Também com uma palavra da raiz mechôlah. O problema se agrava quando se confirma que uma palavra dessa raiz é empregada em Êxodo 32:19 para descrever as danças (mechôlah) em volta do bezerro de ouro.

Alguns comentaristas afirmam que os israelitas dançaram despidos, naquela festa que se degenerou num ritual pagão. Qual a evidência disto? Quando mandou Moisés descer do monte, Deus disse: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu” (Êxodo 32:7, grifado). Ao descer, quando viu o bezerro e as danças, Moisés quebrou as tábuas da lei, indicando que a aliança daquelas pessoas com Deus estava quebrada (32:19). Arão diz que o povo é “propenso para o mal” (v. 22), e Moisés disse que povo estava “desenfreado” (v. 25). Em Êxodo 32:6, se diz que naquele dia o povo de Israel levantou de madrugada para comer e beber, e “divertir-se”. O verbo empregado para essa diversão (letsacheq) é traduzido por paidzein, na LXX (Septuaginta, versão grega do AT), e indica práticas de caráter sexual. O mesmo verbo é usado para falar de relações íntimas, em Gênesis 26:8 e 39:14. Paulo confirma essa ideia ao interpretar a “diversão” dos israelitas em termos de “imoralidade”, razão por que milhares perderam a vida (I Coríntios 10:6-8). Ellen G. White também confirma que “o culto de Ápis era acompanhado da mais grosseira licenciosidade, e o relato das Escrituras denota que a adoração ao bezerro levada a efeito pelos israelitas foi acompanhada por toda a devassidão usual no culto pagão” (Patriarcas e Profetas, p. 316).

Mas a quem o povo de Israel fazia a celebração no Monte Sinai? Ao bezerro de ouro? Ao boi Ápis do Egito? Arão tinha dito claramente (Êxodo 32:5) que a festa era para o “Senhor” (Yahweh, o Deus do pacto). Essa era a boa intenção dele.

Assim, como Miriam e as mulheres dançaram para Deus, os israelitas no Sinai tinham intenção semelhante. A diferença entre a dança de Miriam e dos israelitas no deserto pode ser só o desdobramento da segunda, quando o povo perdeu os limites. A semelhança é sugerida pelo uso dos mesmos termos, e pelo contexto cultural.

Mas, caso as mulheres de Israel tenham feito uma dança secular para louvar, como Deus pôde aceitar isso? Quando o adorador ainda não tem luz acerca do assunto, a sinceridade do coração é muito importante quanto à aceitação por parte de Deus. Mas isso só até as pessoas saberem o que Deus quer e como ele quer. Deus não considera os tempos de “ignorância” (Atos 17:30).

Se a dança de Miriam para Deus e a das mulheres para os guerreiros era secular bem como aquela feita no Sinai, de que dança fala o Salmo 150?

A palavra hebraica traduzida por “danças” no Salmo 150 é machôl, da mesma raiz chûl. Nesse caso, o salmo não fala de uma dança extraordinária. Fala de dança comum acompanhada por música também comum. Isso pode ser confirmado pela menção de instrumentos diversos.

A ideia de que essa palavra machôl possa ser traduzida no Salmo 150 por “órgão de tubos” ou “flauta” não é relevante porque a combinação “adufes e danças” é técnica. Quando tambores são usados, dançar é natural.

Aqui há um ponto delicado. Se a dança e a música de Israel para Deus era a mesma realizada nas festividades seculares, e se Deus não indicou nada em contrário, então cada cultura poderia louvar a Deus com suas próprias criações musicais e coreográficas, e não haveria restrições para estilos musicais nem danças, nem faria sentido falar de uma música de louvor. Nesse caso, a música e a dança nada teriam de secular ou sacro. A música sacra estaria desacralizada.

Tem a Bíblia algo a falar sobre uma música de louvor?

Deve-se observar que os eventos referidos acima são anteriores à edificação do templo de Salomão, ocasião em que um sacerdócio completo foi organizado, inclusive um sacerdócio para a música de louvor. Esse sacerdócio aponta princípios decisivos para a música sacra.

Descuido penalizado

Logo que consolidou seu reino sobre Israel, Davi quis levar a arca do Senhor para Jerusalém, a cidade de Davi (ou Sião, II Samuel 5:6-7). O transporte da arca e a posterior edificação do templo são eventos cruciais na compreensão do louvor em Israel. Esses eventos estão relatados com riqueza de detalhes musicais nos livros das Crônicas, obra de um sacerdote, e provavelmente também músico.

Os especialistas consideram que os livros de Crônicas e Esdras apresentam características literárias e históricas que sugerem um mesmo autor, o próprio Esdras. Tendo escrito após o exílio babilônico, o autor de Crônicas constrói uma reflexão sobre o passado de Israel e uma lição de fidelidade ao Senhor, à sua Lei e ao culto em seu santuário em Jerusalém. Davi é uma figura central nessa narrativa por causa do interesse do cronista em destacar a natureza e a importância do culto a Deus.

Quem era Esdras? Trata-se de um sacerdote, filho de Seraías, da linhagem de Zadoque, homem piedoso e letrado, influente na corte babilônica, segundo a tradição. Ele próprio diz que “era escriba versado na Lei de Moisés, dada pelo Senhor” (Esdras 7:6), e um mestre da lei (7:12). A tradição judaica o considera como um “segundo Moisés”, pelo papel que desempenhou no retorno dos judeus a Jerusalém e na restauração da lei e do culto a Deus. Esse homem letrado e profundamente temente a Deus conta a mesma história de Reis e Samuel, concentrado no reino de Davi e nas questões do culto a Deus. Seu zelo pelo culto se reflete na forte ênfase dada ao templo, à arca, e à música de louvor, assim como o zelo pela pureza étnica e religiosa se reflete nas longas listas genealógicas.

Narra o cronista que, para transportar a arca, Davi preparou um carro novo (I Crônicas 13:7) e um conjunto de instrumentos musicais para a festa, incluindo harpas, alaúdes, tamboris (adufes), címbalos e trombetas (I Crônicas 13:8). Em II Samuel acrescentam-se “pandeiros” (6:5). O cronista é bastante resumido ao narrar esse evento. Mesmo assim pode-se concluir que não havia nenhuma novidade musical ou litúrgica como parte do louvor a Deus, em comparação com os episódios já mencionados acerca da experiência litúrgica de Israel. A presença de “tamboris” sugere que a música era de ritmo destacado, e promovia a dança, o que Davi e Israel o fizeram à vontade; eles “se alegravam com todo empenho”, isto é, dançavam (I Crônicas 13:8).

Tanto no relato de Samuel quanto em Crônicas, na primeira festa, “Davi e todo o Israel alegravam-se”, ou dançavam (II Samuel 6:5, I Crônicas 13:8). Ao passo que na segunda, se diz que só Davi dançou (II Samuel 6:14, I Crônicas 15:29).

Que tipo de dança teria sido essa? Como a Bíblia a expressa? Tanto em II Samuel 6:5 quanto em I Crônicas 13:8, o verbo usado para a “dança” é o hebraico tsacheq, da mesma raiz de letsacheq, empregado em Êxodo 32:6 para descrever a diversão dos israelitas. A LXX traduz esse verbo nesses três casos com o mesmo verbo paidzô. O sentido exato do verbo hebraico nesta passagem de Samuel e Crônicas é bastante discutido. O significado geral desse verbo é rir, brincar, folgar, dançar, pular, e, às vezes, divertir-se sensualmente. O renomadoTheological Dictionary of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 14:69) diz que o verbo pode indicar uma dança “profana” de Davi e Israel diante da arca, do contrário Mical “dificilmente teria levantado a acusação de nudez e comportamento dissoluto”. O igualmente autoritativo The Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 5:627) diz que o verbo paidzô que traduz o hebraico tsacheq expressa um tipo de dança comum entre os antigos cultos primitivos gregos, e que o mesmo fenômeno se observa no início do culto em Israel, com conotações “orgiásticas”.

Ellen G. White, no entanto, afirma que a dança de Davi foi em “júbilo reverente” (Patriarcas e Profetas, p. 707). O que isso quer dizer? Estaria ela falando da natureza da dança em si? É bom lembrar que Ellen G. White confirma que o verbo hebraico traduzido por “divertir-se” tem conotação sensual (Patriarcas e Profetas, p. 316). Pode ser que, quando fala da dança de Davi, ela não está falando da natureza da dança em si mesma, que é o tópico das obras citadas acima, mas do espírito e objetivo com que ela foi executada. Nesse caso, Davi estaria louvando a Deus de forma reverente, embora empregasse um recurso comum.

Se Davi fez uma dança comum e secular para Deus, embora com reverência, quem reprovaria o rei de Israel? Só uma pessoa íntima que tivesse motivos pessoais para tanto. E quando Mical o censurou por “descobrir-se sem pejo”, como se faz um “vadio”, ele mesmo não a contradisse, limitando-se a afirmar que “ainda mais desprezível” se faria perante o Senhor (II Samuel 6:20-22).

Essa dança de Davi parece ser cronologicamente a última menção de dança associada ao louvor direto a Deus. Mesmo na festa dos tabernáculos, quando, em geral à noite, o pátio do templo apresentava uma cena de grande regozijo, em que, como descreve Ellen G. White, “homens de cabelos brancos, os sacerdotes do templo e os príncipes do povo, uniam-se em festivas danças ao som dos instrumentos e dos cantos dos levitas” (O Desejado de Todas as Nações, p. 463), a ocasião é claramente de caráter social.

O novo cântico

A despeito dos preparativos de Davi e da multidão de Israel que se reuniu, o transporte da arca foi frustrado. Tendo sido Uzá morto pelo Senhor, a arca ficou no meio do caminho. Apesar da morte de Uzá, Davi podia ter carregado a arca até Jerusalém, ele a levou até a casa de Obede-Edom (I Crônicas 13:13). No entanto, Davi ficou temeroso (13:12). Possivelmente ele ainda não estivesse preparado para ter a arca perto de si. Ela foi levada para a casa de um levita (I Crônicas 13:14; 26:4, 8).

Meses depois, tendo passado a ira divina, Davi retomou seu plano (I Crônicas 15:3). Ao passo que o cronista dedica apenas 14 versos para falar do primeiro evento, desta vez ele narra em dois longos capítulos, com variados detalhes acerca da música.

Em I Crônicas 15:11 e 12, é dito que Davi chamou os sacerdotes para planejar o transporte da arca, o que ele não tinha feito na primeira vez. Deve-se considerar um ponto crucial para a leitura do relato: Se Davi tivesse entendido que seu erro consistia em ter colocado a arca num carro e permitido que não-sacerdotes a transportassem, na segunda festa ele alteraria esse ponto e todo o restante faria igual, especialmente a música. Mas não foi isso que aconteceu. Ele combinou que os sacerdotes deveriam levar a arca (15:13), e que eles deveriam fazer a música para louvar a Deus (15:16).

Ao passo que a ordem para carregar a arca é relatada em apenas um verso, o cronista narra a música desse evento em dezenas de versos. Embora informe que Davi tenha dançado (I Crônicas 15:29), o cronista repete várias vezes a lista de instrumentos, que não sugere uma música feita para dançar. Foram usados “címbalos, alaúdes e harpas”, além de trombetas (ver I Crônicas 15:16, 19-21, 28, 16:5, 42). Deve-se notar que a partir desse evento a lista “címbalos, alaúdes e harpas” torna-se uma expressão técnica para a música do templo.

A omissão de tambores e pandeiros em nenhuma hipótese pode ser atribuída a eventual lapso de memória do cronista. Ele repete a lista dos instrumentos cinco vezes só nesse relato. Além disso, um tal lapso seria estranho à extraordinária memória do autor que lembra o nome dos músicos e suas respectivas famílias (I Crônicas 15:17-24), além dos milhares de famílias e gerações que ele lista no início das crônicas (I Crônicas 15:19-21). Isso é ainda mais relevante ao se considerar que ele está narrando fatos ocorridos havia mais de 500 anos. Davi iniciou seu reinado por volta do ano 1000 a.C. Esdras saiu de Babilônia por volta de 450 a.C.

A lista “címbalos, alaúdes e harpas” ocorre diversas vezes, sendo caracterizada como a música do templo. Davi preparou esses “instrumentos” exclusivamente para louvar ao Senhor (I Crônicas 23:5). Os levitas músicos foram consagrados, ungidos ou “separados” para louvarem ao Senhor com “címbalos, alaúdes e harpas” (I Crônicas 25:1 e 6). Na inauguração do templo, os levitas tocavam “címbalos, alaúdes e harpas” ou “instrumentos músicos para louvarem ao Senhor” (II Crônicas 5:12,13). O cronista diz ainda que esses eram os “instrumentos músicos do Senhor, que o rei Davi tinha feito para deles se utilizar nas ações de graças ao Senhor” (II Crônicas 7:6, ver também 9:11).

O cronista usa várias vezes um qualificativo para falar da música de louvor a Deus no contexto do templo, a partir do segundo transporte da arca. Em referência a essa música, ele usa as expressões “hinos” (I Crônicas 16:7), “a música de Deus” (I Crônicas 16:42), “cântico do Senhor” (I Crônicas 25:7), “louvor ao Senhor” (II Crônicas 5:13) e “cântico do Senhor” (II Crônicas 29:27). A expressão “cântico do Senhor” literalmente é “a música do Senhor”.

O início de uma nova fase na história litúrgica de Israel é claramente marcado pelo cronista com a seguinte expressão: “Naquele dia, foi que Davi encarregou, pela primeira vez, a Asafe e a seus irmãos de celebrarem com hinos ao Senhor” (I Crônicas 16:7). Com duas expressões de tempo que delimitam um divisor de águas (“naquele dia” e “pela primeira vez”), esse verso indica que até aquele evento, Israel teve uma experiência de louvor, e a partir dali teve outra.

Essa compreensão de I Crônicas 16:7 é reforçada pelo contexto. Em I Crônicas 15:16, “Davi disse aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, os cantores…”. I Crônicas 16:4 diz que Davi “designou dentre os levitas os que haviam de ministrar diante da arca do Senhor, e celebrar e louvar, e exaltar o Senhor, a saber, Asafe… “. E I Crônicas 25:1 diz que “Davi separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e Jedutum, para profetizarem com harpas, alaúdes e címbalos”.

O transporte da arca para Jerusalém marcou o “início histórico do ministério musical dos levitas em Israel”, e “a nomeação feita por Davi de um ministério levítico para a música e o louvor a Deus marca um significativo avanço para a história do culto em Israel” (The Expositor’s Bible Commentary[Zondervan: Grand Rapids, MI], “I Crônicas 15:16 e 16:4“, 4:387-389 ). Sobre I Crônicas 16:7, o Broadman Bible Commentary (Broadman Press: Nashille, TN) diz que “Davi fez uma nomeação permanente” relativa ao louvor a Deus, para ser dirigido pelos músicos levitas.

Esse episódio mostra não apenas que o louvor a Deus passou por uma mudança litúrgica como também que ele foi institucionalizado para ser dirigido por um sacerdócio ordenado. Os cantores levitas dirigiam o canto de louvores e a congregação tomava parte ativa (I Crônicas 15:28, II Crônicas 23:13). Os sacerdotes músicos eram mais de 10% de todos os sacerdotes (I Crônicas 15:16, 23:3-5). A partir desse evento o ministério do louvor é privatizado aos levitas como todos os demais. Os levitas músicos são listados por famílias, e se diz que os filhos estavam sob direção de seus pais, e todos os músicos eram “instruídos no canto do Senhor” (I Crônicas 25:7). A expressão sugere uma unidade entre as famílias dos músicos que era tecida por esse ministério musical.

O mandado do Senhor

Davi provavelmente fosse inclinado para o ritmo e dança. Além de rei, ele era um músico, e compositor. Que esses eram seus gostos fica claro na música e na conduta dele durante os eventos em questão. E se era assim, o que aconteceu para que ele entendesse que os levitas deviam definir a música da festa do transporte da arca e do templo, sem tamboris e pandeiros? Considerando seus possíveis gostos, Davi não faria isso por sua própria vontade.

Essa ideia está confirmada em II Crônicas 29:25-27. Ali se narra a reforma de Ezequias, em que ele restabeleceu o culto a Deus. A Bíblia declara que o rei reinstituiu a música de “címbalos, alaúdes e harpas” (29:25), a mesma música dos levitas, “segundo mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã”. Mas, eles mesmos inventaram esse padrão musical? Não. “Esse mandado veio do Senhor por intermédio de seus profetas”, revela claramente a Palavra de Deus (ver II Crônicas 29:25).

Ênfase especial é dada aos instrumentos, que além da lista específica, se diz duas vezes que eram “os instrumentos de Davi”, como passaram a ser chamados. Estes são os “instrumentos acerca dos quais Deus, através de Natã e Gade, deu instruções a Davi para que fossem usados no templo (II Crônicas 29:25)”, confirma The Expositor’s Bible Commentary, “II Crônicas 25:1“, 4:424.

Quando Davi recebeu essa revelação por meio dos profetas? Provavelmente no intervalo dos três meses em que a arca esteve na casa de Obede-Edom. Por isso Davi comandou a mudança litúrgica e musical focalizada em Crônicas. A obra The Expositor’s Bible Commentary defende que “Davi agiu sob direção divina, transmitida através dos profetas Natã e Gade” (4:389).

A música feita com esses instrumentos tornou-se um modelo em Israel. Além da reforma de Ezequias que a reinstituiu (por volta do ano 700 a.C.), na reedificação de Jerusalém, Esdras e Neemias retomaram o mesmo padrão, com “címbalos, alaúdes e harpas”, os “instrumentos de Davi” (Neemias 12:27, 36), por volta do ano 450 a.C. De uma presumível predominância dos adufes (tambores) e pandeiros, no modelo anterior ao templo (II Samuel 6:5), o novo modelo deu clara predominância aos instrumentos de cordas, com as harpas e os alaúdes ou saltérios (II Crônicas 29:25). Os címbalos (pratos ou sinos) não podem ser vistos como uma abertura para o uso dos tambores, uma vez que esse instrumento não tem função de acentuar o ritmo como têm os tambores.

A Pictorial Encyclopedia of the Bible (Zondervan: Grand Rapids, MI, 4:315) diz que, na música do templo, “a falta de menção de um amplo grupo de percussão bem como a ausência de corpos de dançarinos podem indicar uma tentativa de evitar semelhança com as formas pagãs de adoração”.

Essa característica da música do templo não pode ser ignorada. Visualizando o louvor na eternidade, em seu cântico o rei Ezequias diz que “tangendo instrumentos de cordas, nós O louvaremos todos os dias de nossa vida, na Casa do Senhor” (Isaías 38:20). O Apocalipse fala de harpas nas mãos dos salvos para louvarem a Deus no Céu (Apocalipse 5:8, 14:2).

Relendo o salmo

Tendo visualizado esse contexto da história litúrgica de Israel, pode-se retomar o Salmo 150. Quem escreveu o salmo? Quando foi escrito? Considerando que a lista de instrumentos do salmo é muito próxima da lista da primeira festa de Davi, o salmo deve ter sido escrito antes dessa festa.

Entre outras fontes de especialistas, a publicação The Septuagint Version (Zondervan: Grand Rapids, MI), diz que o Salmo 150 é “um salmo genuíno de Davi, composto quando ele venceu o combate com Golias”. Nesse caso, quando fala de como louvar, Davi naturalmente expressa a compreensão do louvor a Deus daquela fase de sua vida. A experiência do templo agregou mais luz a essa compreensão.

(…)Isso significa que Salmo 150:4 não seja inspirado? De modo nenhum. Da mesma forma que Jesus não estava dizendo que Moisés e algum trecho do AT (como Deuteronômio 24:1-14, Êxodo 21:23-25, Levítico 24:20, Deuteronômio 19:21, Levítico 19:18, Salmos 139:21-22) não eram inspirados quando ele os aprofundou, dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…” (Mateus 5:33, ver também 5:27, 31, 34), “Eu, porém, vos digo…” (Mateus 5:32, ver também 5:28, 34, 39, 44).

Mais tarde ele explicou por que o critério dado por Moisés estava sendo ampliado: “Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mateus 19:8).

O conhecimento da vontade de Deus se aprofunda e se amplia com o amadurecimento do povo de Deus. Os servos de Deus louvavam com sinceridade e reverência de acordo com os costumes e estilos musicais e coreográficos que eles tinham. Porém, quando esses costumes podem interferir na relação de Deus com seu povo, como ocorreu com Israel no Sinai, ele revela novos e mais elevados padrões, no momento apropriado.

Assim, para se compreender a maneira de louvar segundo a Bíblia, deve-se estudar a partir de um contexto amplo da história do povo de Deus, nunca isolando um texto de seu contexto.
Seria o templo um modelo ou ideal para a igreja?

O templo terrestre é uma representação em dois sentidos. Ele aponta para o Messias vindouro, mas também retrata a santidade do santuário celestial, onde os filhos de Deus serão recebidos por ocasião das “bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:1, 7,8, 7:9), e quando com harpas cantarão o “cântico novo” (Apocalipse 14:2-3). A “noiva” que se “atavia” para as bodas é a igreja que se prepara para estar lá, na presença de Deus, para o louvor no próprio santuário celestial.

Ellen G. White diz que “da santidade atribuída ao santuário terrestre os cristãos devem aprender como considerar o lugar onde o Senhor propõe encontrar-se com seu povo”. Ela acrescenta que “as coisas sagradas e preciosas, destinadas a prender-nos a Deus, estão quase perdendo sua influência sobre nosso espírito e coração, sendo rebaixadas ao nível das coisas comuns”. E por fim, compara, “para a alma crente e humilde, a casa de Deus na Terra é como a porta do Céu. Os cânticos de louvor, a oração, a palavra ministrada pelos embaixadores do Senhor, são os meios que Deus proveu para preparar um povo para a assembléia lá do alto, para a reunião sublime à qual coisa alguma que contamine poderá ser admitida” (Testemunhos Seletos, vol. II, p. 193).

Essa visão de um padrão de louvor indicado por Deus deve pavimentar um caminho de princípios para a música litúrgica em todos os tempos.

Vanderlei Dorneles, doutorando pela Universidade de São Paulo, é professor no Unasp, Engenheiro Coelho.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

VERDADEIRA ADORAÇÃO

Por meio de Jesus, pois ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis igualmente a prática do bem e a mútua cooperação; pois com tais sacrifícios Deus se compraz
( Hebreus 13. 15-16)

Estes versículos apresentam a ordem de Deus quanto aos dois aspectos do sacerdócio dos crentes. Primeiro vem o nosso serviço para com Deus como sacerdotes santos. Guiados pelo nosso grande Sumo Sacerdote, confessamos Seu nome e, assim, ofereçamos a Deus aquilo que mais Lhe agrada. Depois do santo serviço na presença de Deus, o sacerdote é qualificado para exercer excelente serviço para com o homem. isso não apenas porque Deus é mais importante que o homem, mas também porque o poder, a força e a direção do sacerdote em fazer qualquer coisa para o homem procedem de seu relacionamento com Deus.

Isso fica muito claro em 1 Pedro 2, onde o santo sacerdote aprende sobre a preciosidade de Cristo na presença de Deus, antes que suas boas obras para com o homem possam de fato manifestar os louvores Àquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz. Como poderemos, como crentes e sacerdotes, comunicar “a luz do mundo” a um mundo tenebroso, durante a semana, se não nos encontrarmos no primeiro dia da semana para louvá-Lo em adoração?

A ideia de que a adoração deve preceder o serviço é apresentada pelo próprio Senhor. Quando Ele se encontrava na casa de Simão, e uma mulher, aproximando-se, derramou sobre a Sua cabeça um precioso perfume, ela O estava adorando. Os discípulos se indignaram. Eles viram a expressão da adoração como um desperdício de dinheiro, o qual seria bem mais aproveitado se dado aos pobres. Jesus, contudo, corrigiu-lhes, e exaltou a genuína adoração daquela mulher acima do pretendido serviço  dos discípulos: “Ela praticou boa ação para comigo” (Mateus 26.10).

O serviço é importante. O versículo diz assim: “Pois com tais sacrifícios Deus se compraz”. Contudo, se o serviço não for resultado da adoração, nem dirigido por Deus, então, embora possa ser bom para o homem, não terá nenhum valor agradável para Deus.


Referência

SPIEKER, B. Peter. Devocional Boa Semente. Depósito de Literatura Cristã. GVB. Dillenburg, Germany, 12 de junho de 2001.